Garras na Escuridão

Entramos na caverna com a cautela de quem sabe que cada passo pode ser o último.

Arkain nos trouxe uma solução simples, mas engenhosa: usando sua magia, encantou objetos para emitirem luz. Assim, não precisaríamos de tochas denunciando nossa posição. Hector iluminou seu escudo com aquele brilho firme que parecia combinar com sua fé. Eu, por minha vez, pedi que encantasse minha rapieira — não haveria arma mais adequada para cortar a escuridão. Além disso, Arkain distribuiu três pequenas pedras para cada um de nós, todas igualmente encantadas. A ideia era simples: se o caminho ficasse escuro demais ou precisássemos de visão à distância, bastava arremessá-las, criando pontos de luz onde fosse necessário.

A estratégia logo se mostrou valiosa. Avançamos em silêncio pela passagem principal e logo avistamos a ponte — uma ponte manchada de sangue seco. Era o exato local onde, horas antes, a coruja de Arkain havia sido abatida. Mas agora… nenhum sinal da ave. Nenhuma pena. Nenhum resto.

Paramos. Olhares trocados. A tensão era quase física. Com cuidado, arremessamos uma das pedras-luz para iluminar o trecho além da ponte. Nada. Apenas mais rocha e sombra.

Decidimos então atravessar. Fomos em direção a uma plataforma mais adiante, que parecia oferecer uma posição melhor para avançarmos. Talvez devêssemos ter sido mais cuidadosos.

Assim que Armyn colocou os pés na pedra, o ataque veio. Rápido. Silencioso.

Das sombras, um Garra do Dragão surgiu. Vestido com sua túnica negra, movia-se como se fosse parte da própria escuridão. Avançou contra Armyn com uma velocidade impressionante, desferindo golpes certeiros, mas Armyn, ágil como sempre, conseguiu se esquivar no último instante.

Corremos em seu auxílio, mas a armadilha estava armada: mais dois Garras emergiram das sombras, rodeando-nos com movimentos rápidos e coordenados.

Um deles veio direto para cima de mim. Vi o brilho da lâmina vindo… e aparando o golpe com minha rapieira, desviei o restante com um giro do corpo, me afastando com leveza. Outro veio em direção a Hector, que ergueu o escudo no exato segundo antes de ser atingido, o som do impacto ecoando pela caverna. A armadura dele também recebeu o peso de alguns golpes, mas como sempre, o paladino manteve a posição como uma muralha viva.

Arkain manteve distância, conjurando magias de suporte e ataque sempre que havia uma abertura. Serafina, rápida e quase invisível, surgiu de um canto escuro da caverna para acertar um dos inimigos pelas costas.

O combate foi rápido, intenso… mas ao fim, nosso trabalho em equipe prevaleceu. Evitamos o pior com reações no limite — desviando de estocadas por centímetros, aparando lâminas com as armas ou com o próprio instinto. Sofremos poucos danos, graças à nossa disciplina, armaduras e um pouco de sorte.

Assim que o último Garra caiu, não perdi tempo.

Com a lâmina ainda em punho, caminhei até um dos corpos, cravei minha adaga com firmeza, só para ter certeza… e, claro, para criar a desculpa perfeita para me aproximar e pilhar o que fosse de valor.

Enquanto vasculhava os pertences, o que encontrei me chamou a atenção: as adagas deles. Belamente trabalhadas, com equilíbrio impecável e acabamento de mestre. Não pareciam mágicas… mas, sinceramente, quem sou eu para julgar?

Foi durante essa inspeção que algo estranho apareceu: entre as vestes de um dos Garras… a coruja de Arkain. Morta, presa ali como um troféu, quase como uma provocação. Arkain a recolheu em silêncio. O olhar dele dizia tudo.

Antes que eu pudesse analisar mais as armas, Armyn chamou nossa atenção. Havia uma passagem adiante — uma escada circular, escavada na pedra, descendo para as profundezas da caverna.

Nossos olhares se cruzaram. Nenhum de nós precisou dizer em voz alta.

Concordamos de imediato: iríamos investigar.

E assim, nos preparamos para descer.


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