A festa de Elturel ainda ecoava pelas ruas, mas para nós, a melodia agora era outra: a da urgência. Com o sol se pondo e as luzes da cidade acendendo, nos dirigimos à taverna, não para mais jogos, mas para a conversa séria que Ontharr havia prometido. Fomos direcionados a uma sala reservada, e ao abrir a porta, a cena era quase cômica, mas carregada de significado: lá estavam eles, Ontharr e Leosin, sentados confortavelmente, cachimbos fumegando, um sorriso satisfeito em seus rostos, como se estivessem apenas esperando por um bom espetáculo.

Eles nos receberam com a cordialidade de velhos amigos, e logo a conversa séria começou. Ontharr, com um brilho nos olhos, explicou que os jogos do festival não eram apenas para diversão; eram uma forma astuta de identificar aventureiros capazes e talentosos. “Fico feliz em ver que alguns de vocês se destacaram!” ele disse, com um aceno que parecia incluir a todos, mas que eu sabia ser um reconhecimento sutil de nossas vitórias. Em seguida, ele e Leosin explicaram que a ameaça do Culto de Tiamat havia despertado a preocupação de diversas guildas e ordens, entre elas os Harpistas – aos quais Leosin pertencia – e a Manopla, representada por Ontharr. Estavam se unindo, formando uma aliança improvável, mas necessária, para conter o avanço do culto. Mas o que me fez apertar os lábios foi a revelação de que, mesmo entre aqueles que se opunham ao culto, havia alguns indivíduos – audaciosos, ou seria insanos? – que, em sua megalomania, desejavam que Tiamat fosse bem-sucedida em seu retorno, apenas para, então, tentar matá-la. A audácia desses malucos era de arrepiar!

Hector, com sua seriedade habitual, não perdeu tempo e estendeu os mapas que havíamos recuperado sobre a mesa. As linhas e marcações revelavam um padrão sombrio: cidades atacadas, saqueadas e abandonadas, exatamente como Ninho Verde. O destino dos cultistas, segundo as pistas, apontava para algum lugar ao norte, próximo a Waterdeep, e um nome, Naerytar, surgiu como um possível objetivo. Ainda não tínhamos informações precisas sobre esse lugar, mas a direção era clara.

Ontharr, com sua voz grave e experiente, explicou o plano. Para chegar a Waterdeep, os cultistas passariam pelos Portões de Baldur. Nossa chance seria nos infiltrarmos em caravanas que seguiam para lá, disfarçados como guardas. Com a ajuda de aliados que garantirão nossa entrada, poderíamos acompanhar os cultistas de perto, aprender mais sobre seus movimentos e, quem sabe, desvendar o mistério de Naerytar e seu verdadeiro propósito. Partiríamos na manhã seguinte.

Enquanto a discussão se aprofundava, notei Armyn se aproximar de Ontharr, seus olhos élficos brilhando com uma curiosidade incomum. Ele parecia interessado em saber mais sobre a guilda Enclave Esmeralda, talvez considerando a possibilidade de se juntar a eles. Leosin, por sua vez, veio até mim, com um sorriso enigmático. Em suas mãos, um broche dourado, discreto, mas com um peso de responsabilidade. “Bem-vinda, Mira,” ele sussurrou, “agora você é oficialmente parte dos Harpistas.” Ele me deu o nome de um contato, Carlo Amoffel, outro membro da guilda que eu deveria procurar. Senti um misto de orgulho e a familiar excitação de uma nova aventura.

Antes que pudéssemos nos recolher para o breve descanso, Leosin nos surpreendeu novamente. Com um floreio dramático, digno de um bardo, ele abriu pacotes enrolados em belos tecidos, revelando presentes que fariam qualquer aventureiro salivar. Para mim, uma rapieira que me deixou sem fôlego: sua lâmina, feita de um cristal esmeralda, parecia ter um brilho próprio, pulsante, e sua guarda, de um metal dourado finamente trabalhado em um padrão intrincado, era uma obra de arte. Não hesitei em batizá-la: “Dama Esmeralda”. Ela era perfeita.

Para Hector, um cachecol feito de escamas brancas, com detalhes dourados e uma cabeça de dragão dourada em um dos extremos – um presente que combinava com sua fé e sua força. Ele o chamou de “Gucci”, com um sorriso que só um paladino poderia dar a um item tão… estiloso. Seraphina recebeu um pequeno totem, finamente trabalhado no formato de um canário amarelo-dourado, delicado e cheio de uma magia sutil. Ela o nomeou “Aurisol” e “Drakhael”, sugerindo que o totem poderia invocar duas entidades diferentes, dependendo do nome usado. Armyn ganhou um arco belíssimo, que lembrava asas de dragão azul, com uma centelha elétrica própria que parecia dançar em sua madeira. Ele o nomeou “Faen luin”, um sussurro élfico que significava “Raio Azul”. E para Arkain, um pingente de uma pedra púrpura, ou seria negra? Parecia que ela continha um espaço próprio dentro de si, como se uma estrela negra estivesse viva em seu interior.

Leosin explicou que os poderes desses itens se revelariam após três dias de ligação conosco, mas que, por ora, o mais importante era dormir. A manhã seguinte nos chamaria para a estrada, e a Dama Esmeralda, junto com os outros dons, seria testada em breve. A melodia da aventura havia se tornado uma sinfonia complexa, e eu estava pronta para tocar minha parte.


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