A estrada, por mais que nos acostumemos a ela, sempre nos reserva surpresas. E, para minha sorte, a monotonia dos dias de viagem foi quebrada pela promessa de uma taverna. A próxima cidadezinha, um aglomerado de casas e cheiros que prometiam um descanso merecido, surgiu no horizonte como um oásis. A ideia de uma cama macia e uma refeição quente era um bálsamo para a alma, e a possibilidade de uma boa história para contar, um convite irrecusável.

Chegamos e, como de costume, nos dispersamos. Cada um com sua missão, seu disfarce, sua própria forma de se misturar à paisagem. Eu, Oleana, a barda, me dirigi à taverna. O cheiro de cerveja barata, suor e fumaça de cachimbo era a melodia de boas-vindas. O burburinho de vozes, o tilintar de canecas e o riso fácil preenchiam o ar. E, claro, a fauna clássica de qualquer estabelecimento do tipo: viajantes cansados, mercadores barulhentos e, inevitavelmente, aqueles que buscam dinheiro fácil, ou, pior, problemas.

Não demorou para que dois desses problemas, em forma de garotas com sorrisos maliciosos e olhares famintos, se aproximassem. Elas me viram, uma mulher sozinha, talvez um pouco mais bem vestida que a média, e, erroneamente, me julgaram um alvo fácil. Ah, se elas soubessem. Nem Mira, nem Oleana seriam presas tão simples. Elas queriam beber comigo, me embriagar, talvez me roubar. Mas eu estava em missão, e a sobriedade era minha melhor arma. Recusei, com a polidez que meu disfarce exigia, mas elas insistiram. A persistência delas, no entanto, acendeu uma lâmpada em minha mente.

Olhei ao redor, meus olhos varrendo o salão, buscando um alvo. E lá estava ele, um dos cultistas, sentado em um canto, já com a face avermelhada pelo álcool, mas ainda consciente o suficiente para ser um problema. Um sorriso discreto brincou em meus lábios. “Por que não deixam um dos meus companheiros bêbados?”, sugeri, apontando para o cultista com um aceno quase imperceptível. “Talvez assim consigamos arrancar algo dele.” A ideia era boa, mas elas, espertas como eram, não se deixaram enganar tão facilmente. Aceitaram o dinheiro, sim, mas com uma condição: eu teria que beber com ele.

Minha mente, afiada como a Dama Esmeralda, já traçava o plano. Aceitei, com um sorriso que prometia mais do que eu pretendia entregar. Tinha comigo meus vinhos, um forte e um fraco, um truque antigo, mas sempre eficaz. O jogo estava montado. Sentei-me à mesa com o cultista, as duas garotas ao meu lado, observando com a expectativa de quem assiste a um bom espetáculo. Servi o vinho, habilmente, garantindo que o forte fosse para ele, e o fraco, para mim. Distraí-o com conversas banais, com canções improvisadas, com a lábia que é minha segunda natureza. Ele, bobo e seduzido pela atenção, bebeu sem desconfiar. Em pouco tempo, a gravidade o venceu, e ele desabou sobre a mesa, um monte inerte de robes e promessas vazias.

As garotas, com sorrisos marotos, já se preparavam para levá-lo. “Vamos levá-lo para o quarto”, disseram, os olhos brilhando com a perspectiva de um lucro fácil. Mas eu queria algo mais valioso que moedas de prata. “Não”, disse eu, minha voz assumindo um tom que não admitia contestação, “ele é meu. Para aproveitar a noite toda.” Fui incisiva, meus olhos transmitindo uma determinação que as fez recuar. Elas resmungaram, me xingaram, mas viram que não havia como argumentar. Que seja. Minha missão era mais importante que a opinião de duas oportunistas.

Com o cultista inerte a reboque, fui até o taverneiro. Pedi uma chave para um quarto e, para minha surpresa, ele me ofereceu “algo extra”, com um olhar que sugeria que ele já havia visto de tudo e mais um pouco. Aceitei, sem tempo para explicações, e segui meu caminho. No corredor, cruzei com Arkain. “Me encontrem lá em cima”, sussurrei, “e leve Sofia.” Ele assentiu, a compreensão brilhando em seus olhos.

Cheguei ao quarto, arrastei o cultista para dentro e esperei. Não demorou. Meus companheiros, eficientes como sempre, logo estavam ali. A discussão foi rápida, o plano traçado em sussurros. Eu extrairia as informações. Seraphina, com sua sabedoria natural, providenciaria as ervas para acordá-lo no momento certo. Hector, com sua imponência, se juntaria aos cultistas, usando os documentos que havíamos subtraído e a adaga de um Garra do Dragão morto que lhe entreguei. O resto, para fora. Era a hora da artista.

Com o palco montado e a plateia dispersa, comecei meu espetáculo. Seraphina me entregou as ervas, e eu, Mira Nocturna, com um toque leve e preciso, apliquei-as no cultista. Ele, com um gemido, começou a despertar. E eu entrei em cena. Fiz juras de amor, com uma intensidade que faria qualquer bardo da corte de um rei corar. Ele, assustado e confuso, tentou fugir. Mas eu não o deixaria. Decidi usar uma nova técnica, uma que eu havia ensaiado apenas em minha mente: a namorada psicopata.

Com minha adaga em seu pescoço, minha voz assumiu um tom doce, mas carregado de ameaça. “Você não vai a lugar nenhum, meu amor”, sussurrei, meus olhos fixos nos dele, “não antes de me contar tudo.” O medo fez seu efeito. Ele estava sob meu domínio. Prometeu não me revelar aos seus companheiros e, sob a pressão da lâmina fria, começou a falar.

Não foi muito, mas foi o suficiente. Ele não sabia o destino final, mas confirmou que a caravana passaria por Waterdeep. Não havia risco de eles abandonarem a rota no meio do percurso. Fiz ele jurar, com o terror nos olhos, que voltaria para mim. Um juramento forçado, sim, mas que poderia ser útil no futuro, uma corda invisível para puxá-lo de volta.

Saí do quarto, a adrenalina ainda correndo em minhas veias. A informação era escassa, mas valiosa. Sabíamos que eles não sabiam muito, o que era uma vantagem, e que Waterdeep era uma parada confirmada. O plano havia sido rápido, improvisado, mas estávamos progredindo. A melodia da aventura, agora, tinha um tom de intriga e um toque de loucura. E eu, Mira Nocturna, estava pronta para o próximo ato.


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