Ainda nos recuperávamos dos ferimentos da batalha contra Langdedrossa Cyanwrath quando um novo som cortou o silêncio tenso do amanhecer — algo que lembrava o bater de asas, mas com um peso que fazia o ar vibrar. Era difícil dizer se aquilo vinha de algo muito próximo… ou de algo enorme, voando à distância.
Então vimos. Um vulto, imenso e ameaçador, surgiu no meio da fumaça que ainda pairava sobre o campo. Corremos para as ameias do forte. Lá em cima, nos armamos com os arcos que ainda restavam. O elfo seguiu direto para a balestra, assumindo o controle com sua frieza habitual, enquanto nós, os demais, nos espalhávamos pela muralha com flechas em punho, a respiração presa no peito.
E então ele apareceu: um grande dragão azul, enorme, as asas rasgando os céus como cortinas de trovão, as escamas reluzindo com a eletricidade que pulsava sob sua pele. Disparamos o que tínhamos — flechas pequenas diante daquela presença — mais por instinto do que por esperança real. Algumas se perderam no ar ou ricochetearam, inúteis. Mas outras, lançadas pelo paladino com surpreendente precisão, conseguiram penetrar por entre as placas de escamas do monstro, arrancando rugidos de fúria e dor. Por um breve momento, sentimos que talvez… talvez fosse possível feri-lo.
Foi então que ele respondeu.
O dragão recuou ligeiramente no ar e soltou um rugido que sacudiu as pedras do forte, antes de liberar uma rajada de pura eletricidade sobre nós. O clarão azul iluminou o mundo inteiro por um instante. Vi o paladino ser atingido em cheio, seu corpo tremendo violentamente antes de cair pesadamente ao chão.
Corri até ele, o coração disparado. Ajoelhei-me ao seu lado, os sentidos ainda zunindo, e comecei a trabalhar. Sem magia, apenas bandagens, pressão, técnicas básicas de primeiros socorros. Faixas apertadas, respiração guiada, estímulos para mantê-lo consciente.
“Vamos, você não vai cair agora”, sussurrei, enquanto ele abria os olhos com dificuldade.
Conseguimos trazê-lo de volta, apenas o suficiente para que se levantasse com esforço. E então nos afastamos das ameias, descendo às pressas pelos andaimes e escadas de madeira que margeavam a muralha, buscando abrigo das próximas investidas. Abaixo, protegidos por sombras e estruturas improvisadas, esperávamos, ouvindo o combate ainda rugindo acima de nós.
Foi nesse instante, quando o dragão fez menção de se erguer no ar novamente, que a balestra disparou.
O projétil cortou os céus com um silvo agudo e certeiro, atingindo o flanco da criatura com um impacto que ecoou por toda a fortificação. Um rugido de pura fúria e dor ressoou entre as nuvens, mas ao invés de retaliar, o dragão bateu as asas com força e ascendeu, desaparecendo em meio à fumaça e ao céu carregado.
Ele não caiu. Não foi derrotado. Mas sentiu o golpe.
Talvez fosse só uma provocação.
Talvez um teste.
Se for isso mesmo… fomos notados. E talvez, entre nós, alguns tenham sido marcados.
Quando enfim o céu clareou e o silêncio voltou, nos entreolhamos, ainda em choque. Mas então alguém soltou uma risada — nervosa, aliviada, mas verdadeira. Seguida por outra, e depois mais uma. Sobrevivemos. Era motivo suficiente para celebrar.
Nos sentamos juntos ali mesmo, entre as pedras, o sangue e a fumaça, e pela primeira vez, paramos para realmente nos apresentar:
A gnoma coberta de musgo e com cheiro de terra — Seraphina Folha de Chá, nos oferecendo um cogumelo para dor.
O elfo de olhos atentos e mãos certeiras — Amryn Ecthelion, calado, mas letal.
O paladino incansável, que caíra e se levantara — Hector, paladino de Bahamut, de fé e aço.
A hobbit esperta e perigosa como um truque bem feito — Linda Pequeno, que sorria como se tudo fosse um jogo.
E por fim, eu — Mira Nocturna.Estou aqui pela aventura e diversão.”
Não sabíamos o que viria a seguir. Mas naquele instante, sob o céu ainda carregado, éramos aliados. E estávamos vivos.

Deixe um comentário