A manhã nos Portões de Baldur trouxe consigo o burburinho familiar da cidade portuária, mas, para nós, o chamado era outro. Leosin e Ontharr haviam traçado o plano, e agora era hora de nos misturarmos, de nos tornarmos sombras entre as sombras, ou melhor, mercenários entre os mercenários. Nosso destino: seguir as caravanas do culto e desvendar seus segredos.

Chegamos ao ponto de partida das caravanas, uma área movimentada onde o cheiro de suor, feno e promessas de viagem se misturava no ar. Carroças rangiam, animais bufavam e uma multidão de viajantes e mercenários se acotovelava. Antes mesmo que Ackyn Selebon, nosso contato, pudesse nos apresentar, minha mente já trabalhava a mil por hora. Aquele chapéu e a capa, tão marcantes da minha presença, teriam que ser guardados. Não podíamos chamar atenção. Em um piscar de olhos, criei disfarces rápidos para todos, incluindo para mim. Minha rapieira, a Dama Esmeralda, permaneceria em sua bainha, um segredo bem guardado, mas sempre ao alcance da mão.

Ackyn, agindo com notável presteza, nos apresentou como mercenários recém-contratados, e logo as figuras que seriam nossos “empregadores” começaram a surgir. A primeira a se apresentar foi Orvustia Esseren, uma mulher de semblante firme, com mãos calejadas que denunciavam um passado de trabalho pesado. Ela já fora armeira e agora fazia esse trajeto com a familiaridade de quem conhece cada pedra do caminho, cada curva perigosa. Com seu olhar experiente, ela apontou para Hector, nosso paladino, agora o guerreiro Heitor de poucas palavras, e Arkain, agora o mago Dael. Uma dupla sólida, pensei, capaz de lidar com qualquer problema que a estrada pudesse nos reservar.

Em seguida, veio Eldkin Agetul, um anão idoso e atarracado, com uma barba que parecia ter vida própria e um sorriso que mal cabia no rosto. Ele não estava sozinho; um búfalo majestoso e surpreendentemente dócil, chamado Buffo, o acompanhava. Eldkin, com um aceno de cabeça, apontou para Sofia, nossa druida Seraphina. Com sua aura natural e sua conexão com a vida selvagem, ela parecia a escolha perfeita para proteger o anão e seu peculiar companheiro. Uma imagem que, confesso, me arrancou um sorriso discreto.

Aldor Urnpoleshut, um ex-taberneiro que havia vendido tudo em busca de uma nova vida em Waterdeep, contratou Armyn, agora sob o nome de Allan. O elfo, com sua agilidade e discrição, seria um guarda silencioso para os sonhos de um homem que trocou a cerveja pela aventura. Aldor parecia um pouco perdido, mas a esperança em seus olhos era palpável.

E quanto a mim? Bem, uma barda, agora sob a alcunha de Oleana, sempre encontra seu lugar. Oyn Evernmor, outro bardo, com um sorriso que ia de orelha a orelha e uma lira que parecia implorar por companhia, me escolheu. Ele parecia muito feliz de ter uma parceira musical para os longos dias de viagem. Uma companhia musical, e uma segurança discreta, é claro. Eu, Mira Nocturna, agora era Oleana, a barda, pronta para tecer novas canções e, quem sabe, algumas intrigas.

Orvustia explicou os termos do trabalho: viajaríamos por sessenta dias, a alimentação seria por conta dos contratantes – um alívio, já que minhas habilidades culinárias se resumiam a abrir uma garrafa de vinho – e receberíamos uma peça por dia, mais quarenta no destino. Um total de cem peças. Por um instante, jurei ter ouvido “platina”, e meu coração deu um salto. Mas a realidade, como sempre, é mais prosaica: eram peças de prata. Cem peças de prata por dois meses de trabalho. Não era uma fortuna, mas era um bom começo para uma aventureira em ascensão, e o valor da informação que poderíamos obter era inestimável.

Teríamos apenas algumas horas para pequenos preparativos, e logo partiríamos. Assim que o burburinho inicial diminuiu um pouco, me pus a conhecer o restante do grupo. Havia Lovius, o Narigudo, um sujeito que parecia ter um talento especial para se meter onde não era chamado, com uma curiosidade que rivalizava com a minha. Seus olhos pequenos e inquietos pareciam vasculhar cada canto, cada conversa, e eu sabia que ele seria uma fonte de informações – ou de problemas.

Também notei dois mercenários com um comerciante que se recusava a interagir. Ele se mantinha à distância, envolto em um manto escuro, e seus guardas, um guerreiro e um mago, pareciam tão reservados quanto ele. Não sei que tesouros esse homem carregava, mas ter uma dupla tão formidável como guardas indicava que não era pouca coisa. Um mistério a ser desvendado, talvez.

E, por fim, as duas carroças que Ackyn nos alertou: uma grande e uma pequena, com certeza pertenciam aos cultistas. A menor passava despercebida, misturando-se facilmente às outras do comboio. Mas a grande, aquela sim, chamava a atenção. Era fechada, sem janelas, e sua estrutura robusta e incomum despertava uma curiosidade quase irresistível. Nosso alvo estava à vista, e a caçada começava.

Logo na partida, enquanto a caravana começava a se mover, conversei com Eldkin. O anão, com seu jeito bonachão, me vendeu um belo chapéu pirata. Era de couro envelhecido, mas bordeado com um dourado magnífico, e me caiu como uma luva. Agora sim, meu disfarce estava perfeito. Não apenas escondia minha identidade, mas adicionava um toque de estilo e mistério, um ar de quem já viu muitos mares e muitas aventuras.

Ainda tínhamos uma longa trajetória pela frente. Sessenta dias. Sessenta dias de estrada, de observação, de canções e, quem sabe, de algumas intrigas. Sessenta dias que prometiam ser interessantes… e lucrativos. A melodia da aventura, agora, tinha o ritmo cadenciado das rodas da carroça e o cheiro de poeira e promessa, enquanto os Portões de Baldur ficavam para trás, e o desconhecido nos chamava.


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