A manhã seguinte nos encontrou a bordo de um navio, com o cheiro salgado do mar substituindo a poeira da estrada. Navegamos por dias, uma sucessão de amanheceres e entardeceres que se fundiam em uma tapeçaria de tempo. Enquanto alguns de nós se dedicavam a desvendar os segredos de nossos novos itens, eu me dividi em duas paixões: a lâmina e o mar. Continuei a guiar Armyn nos passos da rapieira, observando com satisfação sua destreza élfica se adaptar à dança da espada. Mas o mar… ah, o mar me chamava de outra forma. Voluntariando-me para ajudar o capitão, encontrei-me esfregando o convés e cumprindo tarefas sem glamour. Foi muito trabalho, sem a glória que os bardos cantam, mas valeu a pena. Os dias, como páginas viradas por uma mão invisível, voaram, e antes que pudéssemos piscar, os Portões de Baldur se erguiam diante de nós.

A cidade era um labirinto de vielas estreitas, um caldeirão de vida onde tudo podia ser encontrado. Cavalos não eram permitidos em suas entranhas, e a promessa de um novo palco para nossas aventuras pulsava no ar. Nosso primeiro objetivo: Ackyn Selebon, o contato de Leosin, encarregado de organizar os mercenários para as caravanas. Encontramo-lo na área externa, e a conversa foi rápida. Nomes e profissões falsas, a cortina se erguia para um novo ato. Hector, agora Heitor, era um guerreiro. Armyn, o ágil Allan, um patrulheiro. Seraphina, a enigmática Sofia, uma druida. Arkain, o perspicaz Dael, um mago. E eu, Mira Nocturna, me tornei Oleana, a barda. Ackyn prometeu preparar tudo, e com isso, ganhamos um tempo precioso para explorar a grande cidade.

Nos dividimos, cada um seguindo seu próprio chamado. Seraphina, Armyn e eu nos lançamos ao burburinho dos mercados, em busca de provisões e talvez um ou outro tesouro. Arkain, sendo nativo de Baldur’s Gate, partiu para reencontrar velhos amigos, certamente em busca de informações. Hector, o paladino devoto, seguiu para seus afazeres sagrados, buscando a sabedoria dos deuses.

Soube mais tarde que Arkain, com sua mente afiada, não perdeu tempo. Conseguiu informações cruciais sobre as caravanas, identificando qual delas pertencia aos cultistas. E o mais alarmante: algumas carroças do culto já haviam partido, sem tempo a perder, como se o tempo estivesse escorrendo por entre os dedos. Enquanto isso, Hector, em seu templo de Oghma, o Senhor do Conhecimento, perguntou sobre Naerytar. Os membros do templo não tinham certeza, sugerindo que poderia ser um antigo observatório, mas prometeram investigar. A teia de Tiamat se estendia, e cada fio era um mistério a ser desvendado.

Minha incursão ao mercado com Seraphina foi um sucesso. Ela, com seu conhecimento natural, me ajudou a escolher ervas e especiarias. Mas o ponto alto foi a visita a um vendedor de poções. Eram excelentes, muito superiores às que encontramos em Ninho Verde. Esta era a minha hora de brilhar. Antes que Seraphina ou Armyn pudessem sequer abrir a boca, minha eloquência barda entrou em ação. Convenci o vendedor de que o destino do mundo dependia de nós, que a salvação da civilização estava nas poções que ele nos venderia. E assim, consegui um preço excelente. Com um sorriso vitorioso, persuadi Seraphina e Armyn a gastarem seu dinheiro, garantindo-lhes que o restante do grupo nos reembolsaria pelas poções extras. Afinal, a sobrevivência é a única virtude, e a barganha, uma arte.

À noite, nos reunimos na taverna, o cheiro de cerveja e fumaça de cachimbo preenchendo o ar. Compartilhamos nossas descobertas, distribuímos as poções recém-adquiridas, e Arkain e eu discutíamos o que fazer com as partes de dragonetes que havíamos coletado na caverna. Eu pensava em vender as escamas para poções de fertilidade – nunca se sabe o que pode ser útil – mas a discussão foi interrompida. O ajudante de Ackyn irrompeu na taverna, com uma expressão de urgência que fez o burburinho cessar. Era hora da seleção de mercenários. Ele nos alertou sobre a importância de não ter odores de dragão, que poderiam chamar a atenção. Antes que ele terminasse a frase, Arkain e eu, em um movimento sincronizado, lançamos as escamas e crânios em um canto qualquer da taverna; provavelmente alguém lucraria com nosso tesouro.

A hora havia chegado. O palco estava montado, e nós, os atores, prontos para entrar em cena. A melodia da aventura, agora mais complexa e perigosa, nos chamava para os Portões de Baldur.


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