Os primeiros dias de viagem foram um misto de monotonia e expectativa. A caravana se estendia pela estrada, um rio lento de carroças e pessoas, e, para minha surpresa, nada de extraordinário aconteceu. Seria uma viagem tranquila, afinal? Usei esse tempo para observar, para tentar decifrar as almas por trás dos rostos cansados e das posturas tensas.

Eldkin, o anão, era um poço de bondade. Sua preocupação com Buffo, seu búfalo, era genuína e tocante. Ele falava com o animal como se fosse um filho, e Buffo respondia com um carinho que desmentia sua imponência. Lovius, o Narigudo, era o oposto: um falastrão, curioso que só, metendo o nariz em cada conversa, em cada canto da caravana. Ele era um livro aberto, e eu, Oleana, a barda, adorava ler suas páginas. Oyn, por sua vez, estava visivelmente feliz de ter uma companheira barda, alguém com bom humor e boa música para acompanhá-lo na longa jornada. Já Aldor, o ex-taberneiro, era uma nuvem de melancolia. Triste e aborrecido, parecia carregar o peso de todas as suas desventuras, um homem que a vida havia maltratado e que agora buscava um recomeço incerto.

Os outros, bem, pareciam estar muito preocupados para sequer querer papo. Os cultistas, por razões óbvias, eram como tábuas de madeira, impassíveis e distantes. E o rico comerciante, com seu guerreiro e mago, mantinha-se em seu próprio mundo de silêncio e mistério. Seja lá o que ele carregava, eu queria saber. Minha curiosidade era uma chama que se recusava a apagar.

Após alguns dias de estrada, o céu decidiu nos presentear com uma sinfonia aquática. Chuvas incessantes caíram por dias a fio, transformando a estrada em um lamaçal e o humor da caravana em algo tão cinzento quanto o céu. Aproveitei os dias de chuva para tentar algo. Propositalmente, durante uma noite escura e chuvosa, atolei as rodas da grande carroça dos cultistas. Quando eles se viram em apuros, me ofereci prontamente para ajudar, esperando que um gesto de boa vontade pudesse abrir uma fresta em sua armadura de indiferença. Mas eles eram como tábuas, nem mesmo um sorriso. Agradeceram com um aceno seco e voltaram à sua impassibilidade. A aventura nunca é tão simples quanto os bardos cantam, e a diplomacia, às vezes, é um campo minado.

A viagem seguiu, sob a chuva, mas felizmente as nuvens se dissiparam, e o sol voltou a brilhar, trazendo um alívio bem-vindo. Passados alguns dias, o horizonte nos trouxe uma nova preocupação. Vimos grandes pássaros no céu… grandes demais. Eles começaram a descer, em círculos lentos e ameaçadores, provavelmente para atacar alguma presa. E a presa, para nosso horror, éramos nós.

Quando eles se aproximaram, pude ver a abominação: eram o resultado se um cervo e um falcão tivessem decidido ter um filho… um filho grande, com chifres pontiagudos e garras afiadas. Ouvi alguém gritar “Perytons!” Se esse era o nome dessas criaturas, não sei, mas era hora de agir. Preparei meu arco, a corda esticada, a flecha pronta para voar. Mas antes que minha flecha pudesse encontrar seu alvo, Allan disparou.

Seu arco, o “Faen luin”, brilhou com uma luz azul intensa. Um raio de pura energia elétrica cortou o ar, atingindo um dos Perytons em cheio. A criatura explodiu em uma nuvem de penas e carne, iluminando o céu noturno com um clarão espetacular. Nem mesmo eu esperava que ele já fosse usar sua arma mágica, mas aquilo mandou um sinal claro para todos. Os olhos arregalados, as bocas abertas, todos ficaram estupefatos com tamanho poder. Aquele arco voltaico não apenas abateu a criatura, mas também deixou um recado inegável: Allan não era para ser contestado.

Os outros Perytons que sobraram foram mortos pelo restante do grupo, em uma batalha rápida e brutal. Mas, acabada a batalha, todos os olhos se voltavam para Allan. Aldor, com sua preocupação, apressou-se em dizer que tinha apenas peças de prata para pagar, não platina, caso ele não tivesse ouvido direito. Mas Allan estava tranquilo, sua expressão calma e serena. Ele era um mercenário capaz, disse ele, e lutaria facilmente, mesmo sendo pago pouco. Uma demonstração de profissionalismo que, confesso, me impressionou.

A aventura nunca é tão simples quanto os bardos cantam. Às vezes, ela é um lamaçal de chuva, outras vezes, um céu rasgado por raios azuis. Mas sempre, sempre, há uma nova história para contar.


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