O Campo dos Fungos Uivantes

Continuamos nossa viagem, e por um tempo, a estrada se estendeu em uma calmaria quase tediosa. Apenas as melodias de Oyn e as minhas, Oleana, quebravam o silêncio, tecendo uma tapeçaria sonora que tentava afastar a monotonia. Uma coisa, porém, ainda me incomodava: a necessidade de manter distância de Heitor e Allan, para não levantar suspeitas. Era um fardo, ter que ignorar meus companheiros de aventura, mas o disfarce era primordial.

Enquanto cavalgávamos, o cenário à nossa frente foi se abrindo para um belo descampado, vasto e convidativo. Podíamos ver ao longe, e depois de certa distância, uma linha preta surgiu no horizonte. Parecia ser algo como uma floresta, mas menor, mais densa, de uma cor que não combinava com a natureza. Conforme nos aproximamos, a visão se tornou mais clara, e o que vimos nos deixou perplexos: uma formação de fungos. Inúmeros deles, alguns da nossa altura, outros maiores, todos de um negro profundo e inquietante.

Nem mesmo Sofia, nossa druida, havia visto algo igual. Eles se distribuíam por uma vasta região, como se a pergunta clássica – “O bolor dobra de área todo dia, em uma semana ele ocupa metade do pão, quanto tempo ele demora para cobrir o pão todo?” – tivesse sido respondida, mas numa escala muito maior do que um mero pão. Sofia, com sua curiosidade inata e seu amor pela natureza, queria uma amostra. Ela desejava colocar um pedaço em seu cajado, aquele mesmo cajado que o Narigudo tanto a havia perturbado para que lhe vendesse, e ela, categoricamente, se negou.

Sofia se aproximou do fungo e cortou um pedaço com sucesso, mas imediatamente ouvimos um grito. Um uivo ensurdecedor, como se o fungo fosse um espião sendo torturado nas mais obscuras prisões. O grito foi tão forte que Sofia ficou alguns segundos sem conseguir se mover, paralisada pelo som agudo que parecia perfurar a alma.

Percebemos que precisávamos fazer algo, pois passar por aquele mar negro de fungos seria um problema. Discutimos sobre dar a volta, mas isso estava fora de questão; não sabíamos quão longe aquele campo se estendia. Decidi fazer um teste: coloquei tecidos nos ouvidos, na esperança de que “o que os ouvidos não ouvem, a cabeça ignore”. Não deu certo. Assim que queimei alguns fungos, não ouvi nada, mas a tontura foi nauseante, quase me levando ao chão.

Dael, nosso mago, teve outra ideia. Talvez o barulho fosse apenas uma distração, mas o real problema estivesse nos gases que emanavam. Ele colocou tecidos no nariz e começou a queimá-los… desta vez, sucesso. Ele não sofreu nenhum efeito, com exceção de ouvir um barulho, mas sem a dor ou a tontura.

Decidimos assim: os mercenários, excluindo a Sofia – que jamais faria mal aos fungos, mesmo os uivantes – iriam na frente, exterminando os fungos e abrindo caminho. Os fungos, iriam apenas ladrar, e a caravana iria passar. Quando falamos isso para os mercenários de Nyerhite, estes e seu mestre se recusaram. Novamente, chamei-os de covardes, cheguei até a imitar uma galinha, mas nada que os abalasse. Aquela covardia me irritava profundamente.

Sendo assim, lá fomos nós, cada um com sua arma predileta: Heitor com sua espada, Allan com a rapieira que lhe dei, Dael com sua magia, e eu com minha rapieira e tochas. Passamos muito tempo trabalhando, sob os uivos incessantes, mas abrimos caminho para a caravana que seguia a alguns metros de nós, segura naquele mar de cogumelos negros. A aventura nunca é tão simples quanto os bardos cantam, mas a satisfação de abrir caminho para os outros, mesmo que sob gritos, é uma melodia que vale a pena ser tocada.


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