A jornada continuava, e com ela, a certeza de que a estrada nunca é um mar de rosas. Sempre haveria preocupações, e a primeira delas não tardou a aparecer, vinda de onde menos esperávamos: de dentro da nossa própria caravana. O rico comerciante, Nyerhite, um homem cujo nome agora se gravava em minha mente com um traço de repulsa, começou a chicotear violentamente um de seus cavalos, que estava visivelmente fraco e debilitado. A cena era de uma crueldade desnecessária, e meu sangue ferveu. Além da barbárie, aquilo poderia pôr em perigo nosso disfarce. Não sabia até quando Sofia, nossa druida Seraphina, aguentaria. Seus olhos verdes brilhavam com uma fúria contida, e eu podia sentir a magia borbulhando nela. Ela estava apenas a protestar, por enquanto, mas temia que pudesse explodir aquele homem, o que seria um problema de proporções épicas.
Foi então que Heitor, nosso paladino, fez algo que eu não esperava. Com uma rapidez surpreendente, interveio de forma seca e direta. A proposta de Nyerhite foi respondida com uma frase que ecoou pela caravana: “Aqui estão suas 50 peças de ouro, o cavalo agora é meu.” O paladino não esperou por discussões. Amarrou o cavalo, agora seu, na carroça de Orvustia, e prosseguimos sem maiores problemas, deixando Nyerhite com uma expressão indiferente. Um gesto de honra, pensei, que me fez admirar ainda mais o guerreiro.
Aproveitei que o céu estava limpo e a paisagem se abria para uma vasta pradaria, permitindo-nos observar ao longe. Peguei minha fiel luneta e passei a esquadrinhar o horizonte. Não demorou muito para que meus olhos focassem em uma coluna de fumaça à frente. Olhando com mais atenção, vi o que temia: bandidos, hobgoblins e bugbears atacavam um pequeno grupo ao redor de uma carroça em chamas.
Orvustia, com sua voz prática, avisou que se alguém quisesse ajudar, o faria por sua conta e risco. Rapidamente, checamos com nossos contratantes, afinal, não queríamos estragar o disfarce. Todos estavam ok com nossa ida, entendendo a necessidade de proteger a caravana como um todo. Eu incentivava para que o máximo de mercenários fosse, mas Nyerhite, o comerciante cruel, não autorizou os seus a participarem. Chamei-o de covarde, mas era o máximo que podia fazer naquele momento.
Cavalgamos rapidamente em direção ao confronto. Antes mesmo que pudéssemos chegar perto, Dael, o mago, agiu. Apertou seu pingente mágico no pescoço, e com isso, a maior parte dos inimigos saiu voando, ou melhor, caíram para cima, seria a melhor descrição. Uma força invisível os ergueu no ar, e logo depois os deixou cair para sua morte. Um hobgoblin conseguiu se agarrar a uma pedra, e outro estava fora do campo de ação, mas aqueles que subiram… logo desceram.
Dos que ficaram, não tiveram tempo. Eu mesma só disparei uma flecha, mais por instinto do que por necessidade. Eles morreram antes que pudéssemos sequer suar. A batalha foi rápida, brutal e, graças a Dael, espetacular.
Ajudamos a apagar o fogo da carroça atacada, e os mercenários que a protegiam ficaram tomando conta do que restou, enquanto os comerciantes se juntavam a nós para chegarem à próxima cidade. Chegando até nós, Heitor lhes vendeu o cavalo que havia resgatado de Nyerhite, assim teriam transporte. Mas, mais uma vez, a caravana parecia tensa. Eles viram de longe o estrago que foi, bandidos voando pelos ares como bonecos. Aldor, com sua preocupação, voltou a lembrar que só tinha prata para pagar, aparentemente nosso grupo, ou parte dele, começava a se revelar poderoso demais para serem simples mercenários. Mas nosso disfarce ainda funcionava, pelo menos por hora.
Conversando com Oyn, ele estava impressionado e perguntava se eu também tinha tantos poderes. Disse que não, não queria me revelar, mas lembrei a ele que fui a primeira a me voluntariar em todas as ocasiões, ou seja, eu era a mais corajosa. Ele concordou comigo, Oleana, uma barda de muita coragem. Por hora, seguíamos nossa viagem, todos muito mais confiantes nas habilidades de proteção dos mercenários. A melodia da aventura, agora, tinha um tom de poder e mistério, e eu estava pronta para o próximo verso.

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