Alguns dias depois de deixarmos para trás o campo dos fungos uivantes, a caravana, agora mais silenciosa, retomou seu ritmo cadenciado. Saímos do descampado e adentramos uma trilha na floresta, e eu, Oleana, a barda, me perguntava quais novos desafios a estrada nos reservaria. A aventura nunca é tão simples quanto os bardos cantam, e a calmaria é, muitas vezes, apenas o prelúdio de uma nova canção.
Enquanto divagava, um barulho repentino cortou o ar. Saindo do meio da floresta, um grupo de cervos passou correndo, pulando por sobre ou entre as carroças com uma agilidade surpreendente. Instintivamente, me protegi por trás da carroça de Oyn, apenas esperando pelo grito de alguém ferido, pisoteado ou até mesmo perfurado pelos chifres. Mas nada. Tudo ficou silencioso.
Quando o tumulto cessou e ousei espiar, olhei para o centro da caravana. Ali estava ele: um cervo majestoso, o maior que já vi, com o pelo mais belo, praticamente dourado, reluzindo sob a luz filtrada das árvores. Seus olhos, profundos e sábios, examinaram nossa caravana, como se avaliasse cada um de nós. Então, com um movimento gracioso, ele se colocou a correr novamente, desaparecendo na densidade da floresta.
Nada havia acontecido, e isso era um alívio. Mas os olhares ao redor significavam apenas uma coisa: problema. Logo, diversos comerciantes começaram a exigir que seus mercenários trouxessem aquele cervo, seja pela cabeça, pela pele ou apenas pela deliciosa carne que ele deveria ter. Até mesmo Nyerhite, o cruel comerciante, estava dando ordens a seus guardas. Olhei para Oyn; ele não dava a ordem, mas seus olhos brilhavam com o desejo de ter aquele cervo.
Protestei, é claro, mas vi que meus companheiros iriam atrás dele, cada um com seu motivo: ordens do contratante, ou, no caso de Sofia, para protegê-lo. Decidi me juntar a eles. Não podia deixar o grupo dispersar e, acima de tudo, não podia passar por covarde. Heitor não havia recebido ordens para buscar o cervo, mas não queria nos abandonar. Fiz uma bravata, encorajando-o a perseguir o cervo, e foi a desculpa que ele precisava para não ficar longe de nós.
Conforme seguimos, atravessando a floresta, uma névoa começou a nos cercar. Isso poderia significar problemas, mas também poderia nos camuflar. Arkain decidiu quebrar o gelo e começou a conversar com os mercenários de Nyerhite. “Conversar” é um eufemismo; ele quase colocou as cartas na mesa, ainda que deixando em aberto. Avisou-os que eles não iriam tocar no cervo, e que nós estávamos na liderança ali. Deixou implícito que éramos um grupo coeso, mas explícito que a diferença de poder entre eles e nós era grande demais. E como incentivo, algumas moedas de prata (de platina jamais) para eles. Agora, eles trabalhavam para nós também, mas deixaram claro que não iriam fazer nada que machucasse Nyerhite. Para nós, apenas o fato de não atrapalharem já era suficiente.
Seraphina estava visivelmente preocupada; não queria que mal algum abatesse o cervo. Eu estava apenas curiosa, mas, por mim, nem ali estaria. Chegamos a uma clareira, com um pequeno córrego vindo de uma cascata, uma cena belíssima, digna de um conto infantil. Seraphina avançou enquanto nós ficamos para trás, apenas aguardando e observando. Ela se transformou em cervo e, assim, começou a falar com ele. Espero que tenha falado bem de nós; odiaria que aquele belo animal ficasse com raiva.
Após algum tempo, ela voltou a ser a hobbit de sempre e explicou. Ela perguntou ao cervo – que, por tal majestade, chamo de Cervo-Rei – se ele precisava de algo e como poderíamos ajudar. O Cervo-Rei estava apenas preocupado com seu povo e queria que ninguém os perturbasse. Sofia garantiu que isso não aconteceria, que ninguém ousaria tocar em nenhum cervo. Ele retribuiu, contando-lhe um segredo, um segredo que ainda não compreendo: “Estão no caminho certo e devem continuar no rio de ouro até chegarem no castelo no céu. Nem todos irão sobreviver.”
Retornamos, mas não antes de relembrarmos aos mercenários de Nyerhite que a história oficial era de que havíamos perdido o rastro. Eles concordaram, não nos dariam problemas. Ainda me preocupava o fato de eles compreenderem que éramos um grupo só, mas queria apenas eles fora do nosso caminho. Agora, voltávamos para a caravana, para continuarmos de olho nos cultistas, nossa verdadeira presa. A melodia da aventura, agora, tinha um tom místico e um presságio inquietante, e eu, Mira Nocturna, estava pronta para decifrar seus próximos versos.

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